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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Como a linguagem influencia o nosso modo de pensar?


Aproveitei o título de um artigo publicado num site especializado para falar sobre a relatividade das línguas. Todas as línguas têm características próprias, que são criadas de acordo com as necessidades das comunidades que as falam. Assim, como se sabe, é impossível traduzir tudo de uma língua para outra sem que haja alguma perda de significado, aqueles significados peculiares da comunidade de quem escreveu o texto original.

Pra citar um exemplo brasileiro, vamos falar de árvore. Um habitante de zonas urbanas sabe perfeitamente o que é uma árvore, mas ele prioriza a palavra genérica ‘árvore’ para citar todos os tipos de plantas desse tipo que existam na sua rua ou na sua cidade. Um índio que vive na floresta, embora provavelmente tenha em sua língua uma palavra que designe árvore genericamente, certamente priorizará o nome de cada espécie quando tiver que falar alguma coisa em sua tribo. Imaginem um índio falando para outro “encontrei uma onça perto daquela árvore.” É claro que o interlocutor vai perguntar “qual árvore?”. Para eles, especificar a árvore e fundamental; para quem vive nas cidades, não. Numa visão um pouco mais restrita, podemos falar dos jargões profissionais. Esses são até preocupantes porque podem levar as pessoas a um alto grau de alienação quando elas acham que todos a sua volta devem entender a terminologia específica de suas profissões. Médicos são um bom exemplo desses casos. Analistas de sistemas também.

No português temos o singular e o plural. Uma laranja é singular, duas ou mais laranjas é plural, isto é, mais de uma é sempre plural, não importa a quantidade. Há línguas, no entanto, que têm também o ‘dual’. Isso significa que eles se referem às coisas de 3 modos: singular (1 coisa), dual (2 coisas) e plural (3 ou mais coisas)

Quando estamos aprendendo uma língua estrangeira, é muito importante conhecer um pouco da cultura do povo que a fala. Quem quer aprender francês porque quer ir para o Senegal, deve buscar conhecimento dos costumes dos senegaleses, de preferência da cidade de destino. Pra facilitar a compreensão do que digo, imaginem um estrangeiro aprendendo português em Lisboa e que venha para o Brasil. O que vai salvá-lo – ainda – será a língua escrita porque esse estrangeiro vai ficar frustrado ao desembarcar aqui.

Segue a tradução livre (e adaptada) do artigo citado acima, cuja fonte é


"A linguagem molda nossa forma de pensar o mundo. Benjamin Whorf, um linguista do início do séc. XX, chamou esse fenômeno de ‘relatividade linguística’.

As línguas Sami, faladas por povos perto do Círculo Polar Ártico, no norte da Finlândia, Suécia e Noruega têm centenas de palavras para a neve. Por exemplo, em Lule Sami a palavra vahtsa significa "um ou dois centímetros de neve nova em cima de neve antiga." Bulltje significa "neve que está presa a uma casa" e åppås refere-se a "neve virgem que não tenha sido pisada”. No entanto, é importante saber que o fato de o Sami ter mais palavras para se referir à neve, não signifique que os não falantes de Sami não entendam o que seja "um ou dois centímetros de neve nova em cima de neve antiga”.


E como os conceitos mais amplos representados pela linguagem afetam nossa experiência? Por exemplo, cada língua possui diferentes distinções de cor e os linguistas têm conjecturado que as cores faladas estão relacionadas com as cores que podem ser vistas por cada um. Em alguns idiomas verde e azul não são cores diferentes, mas tons diferentes da mesma cor. Em vietnamita, a palavra Xanh é a cor das folhas das árvores e também a cor do céu. Um exemplo ainda mais extremo é o da língua Guugu Yimithirr (falada por um grupo indígena em Queensland, Austrália), que não usa "esquerda", "direita", "por trás", ou "em frente" para dar direções ou situar as coisas. Em vez disso, os falantes de Guugu Yimithirr usam os pontos cardeais (norte, sul, leste e oeste) para descrever as relações entre as coisas. Enquanto um falante de português diz: "para chegar ao banheiro, vá até o final do corredor e vire à esquerda. “É a segunda porta à direita”, um falante de Guugu Yimithirr vai dizer: "vá para o final do corredor e vire para o norte. É a segunda porta a oeste”.

Como Guy Deutscher explica em seu livro ‘Através do vidro de Linguagem’, a pequena mudança no vocabulário pode ter uma enorme influência na sua atitude para com o mundo."

Um abraço e até a próxima!

2 comentários:

  1. Muito interessante. É imprescindível ao tradutor conhecer a língua de chegada. O conhecimento cultural dessa língua para a qual se pretenda traduzir é muito importante para um resultado aproximado da tradução ideal. Talvez por isso é que se compartilha a ideia de que não existe tradução perfeita. O tradutor é um co-autor.

    Solange Carvalho

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  2. Gostei muito! Outros pesquisadores que trabalham (ou trabalharam) com este tema são Lera Boroditsky e Lev Vigotsky :) um estudo bem interessante!

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