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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

A evolução da linguagem

          

          

          A linguagem é um sistema de comunicação exclusivo dos seres humanos. Nos seis milhões de anos em que os símios e os humanos evoluíram de um ancestral comum, a língua parece ter surgido apenas na linhagem humana, juntamente com todas as estruturas cerebrais necessárias para codificar pensamentos em sons e transmiti-los a outros membros da espécie. Outros animais possuem sistemas básicos para perceber e gerar sons que lhes permitem comunicarem-se uns com os outros. Estes sistemas podem ter surgido antes do aparecimento da linguagem.

Entretanto seria possível relacionar as vocalizações dos animais com a língua humana falada? De acordo com Noam Chomsky, a diferença fundamental entre linguagem humana e vocalização dos animais é que a linguagem humana é infinitamente criativa, livre do controle de estímulos e ilimitada em sua capacidade de expressar ideias, enquanto que a comunicação animal consiste em um número fixo de sinais. Cada sinal está associado a um único estímulo externo. Isto tem sido contestado por outros cientistas, que já observaram chimpanzés criando expressões novas.

Como consequência das recentes descobertas, há duas visões concorrentes sobre as origens da linguagem:

Ø  Visão selecionista: A Seleção Natural darwiniana é usada para explicar uma grande quantidade de mudanças evolutivas das espécies, incluindo a origem da gramática, e até mesmo todas as mudanças da linguagem. A visão selecionista encara as línguas como as espécies da biologia. As línguas entram em contato, se adaptam e se modificam. Algumas morrem por não conseguirem se adaptar, ou por outras razões.

Ø  Visão Exaptacionista*: Partes da linguagem foram exaptadas de estruturas cognitivas que os nossos ancestrais pré-humanos usavam para a colheita de alimentos, aprendizado de regras, confecção de ferramenta, caça, etc.

*Exaptação é uma adaptação biológica que não evoluiu por pressões seletivas relacionadas à sua função. Em vez disso evoluiu por pressões seletivas relacionadas a uma adaptação para outras funções, até que eventualmente chegou a um estado ou construção em que veio a ser utilizada para uma nova função. Várias características físicas têm sido atribuídas como exaptações. Por exemplo, os ossos dos vertebrados, que aparecem bem cedo na evolução de nossos ancestrais aquáticos, podem ter originariamente tido a função de armadura protetora ou como método de armazenamento de fosfato de cálcio, e apenas mais tarde terem funcionado como alavancas para os músculos e suporte esquelético. Os olhos complexos de hoje parecem ter evoluído originariamente de estruturas mais simples, de orientação luminosa, em formato de concha ou de cuia, e que foi gradualmente fechando-se em formato de câmera. (explicação adaptada, proveniente da Wikipédia) 
Basicamente, a visão selecionista admite que as línguas evoluam por pressões relativas à suas próprias funções e a visão exaptacionista acredita que as línguas evoluam por pressões seletivas relacionadas a outras funções. Esse assunto é bastante profundo, não dá pra entrar em detalhes nesse post.

O Dr. Derek Bickerton, da Universidade do Havaí, sustenta que os seres humanos podem ter manifestado algo que podemos chamar ‘um precursor da linguagem’ (sons semelhantes a palavras sem organização gramatical) há cerca de dois milhões de anos. Ele sugere que a linguagem se desenvolveu há 120.000 anos, quando humanos deixaram a floresta e começaram caçar na savana. Para comunicarem aos outros o que haviam encontrado, eles precisavam desenvolver símbolos vocais descontextualizados, por exemplo, uma palavra geral para o leão. Por descontextualizados entenda-se que a mesma palavra possa ser usada em diferentes contextos, tais como "O leão é grande", ou "O leão está escondido no mato", ou "cuidado com o leão". Desta forma, os primeiros hominídeos poderiam ter dado os primeiros passos em direção à linguagem. A linguagem também forneceu um meio para os indivíduos envolverem-se em atividades comunitárias, como a caça, para transmitir conhecimento e como instrumento de tomada de decisões. A capacidade de se comunicar através da linguagem criou uma vantagem que se espalhou rapidamente pela população.

            Mas como se chega a conclusões como essas? Claro que a tarefa não é simples e depende de muita pesquisa, inclusive de campo. Não vou me estender nesse ponto até porque não sou um especialista no assunto, mas uma das formas de se interpretar dados e concluir que havia algum tipo de linguagem em determinado grupo de humanos está relacionada à disposição de corpos enterrados. Quando arqueólogos encontram um grupo humano sepultado de forma ordenada, como, por exemplo, todos com as cabeças voltadas para a mesma direção, supõe-se que havia alguma motivação para tal e que, então, devia haver alguma forma de comunicação oral entre eles. O fato de se sepultarem todos em um único local e, além disso, manterem os corpos em certa disposição indica que eles ‘conversavam’ sobre isso.

            O site Ethnologue (http://www.ethnologue.com/web.asp) lista 6.912 línguas vivas no mundo atualmente. No entanto, o número de línguas nunca pode ser determinado com exatidão. Sugiro uma visita a esse site para descobrir que o mundo não se limita a essa meia dúzia de línguas mais conhecidas e muitas vezes ligadas às nações do mundo numa relação recíproca (uma nação/uma língua) bastante mentirosa.
            Outro ponto importante que merece reflexão é o tempo que o ser humano levou desde que ‘criou’ a linguagem oral até inventar sistemas de escrita.

            Um sistema de escrita, ou ortografia, é uma convenção para representar as unidades de uma língua falada. Pode ser através de marcas nas pedras, em folhas, em barro, em cortiça, em metal ou papel. O estudo de sistemas de escrita, em grande medida, consiste em estabelecer correspondências entre estas marcas, ou símbolos, e as unidades da língua falada, tais como sons individuais, sílabas, morfemas (menor unidade de sentido), ou palavras. A fala é efêmera, mas a escrita deixa um registro permanente da língua. A invenção da escrita, cerca de 5.000 anos atrás, é provavelmente uma das maiores conquistas da humanidade. Sem história escrita, o conhecimento que temos do mundo não teria sido possível.

Existem opiniões divergentes a respeito de porque as pessoas sentiram a necessidade de escrever. Alguns pensam que a religião foi a força motivadora, enquanto outros sugerem que a motivação foi a necessidade de manter registros de negócios. Curiosamente, apenas um terço das 6.912 línguas do mundo atual têm sistemas de escrita. Dois terços são ágrafas.

Se pensarmos no mundo como ele é hoje, tecnologicamente bastante avançado, e ‘pequeno’, podemos estranhar que ainda possam existir línguas ágrafas. Mas se analisarmos a evolução da linguagem ao longo do tempo, não será tão estranho assim. Se a linguagem surgiu há 120.000 anos e a escrita há somente 5.000 anos, é natural pensarmos que ainda estamos em franco processo de evolução dessa segunda fase e, por conseguinte, é natural também pensarmos que ainda existam muitas línguas ágrafas. O fato, porém, nos leva a outra reflexão: a da desigualdade do mundo. A escrita é uma evolução tecnológica muito marcante na história da humanidade. Como tal, foi até mesmo muito contestada. Sócrates (o filósofo grego) era contra a escrita por acreditar que com ela não haveria diálogo, essencial para a aprendizagem. No entanto, como poderíamos acumular o conhecimento do mundo sem a escrita? Então, como ainda temos tantas línguas sem representação gráfica? Falta de interesse das populações falantes dessas línguas? Falta de interesse das populações que já tem seu sistema? Falta de necessidade? Não sei responder. Mas acho que o fato de que hoje em dia haja 473 línguas praticamente extintas (entende-se por praticamente extinta uma língua falada por poucas pessoas de idade avançada), e que a previsão para as próximas décadas é que metade das línguas atuais também se extingam pode ajudar na resposta. Também é importante saber que 95% das pessoas hoje em dia falam 5% das línguas existentes, o que significa que 5% da população mundial falam as outras 95%. A diferença é muito grande, as minorias são muitas e várias.

Os dados numéricos deste post foram extraídos dos seguintes sites:

Partes do texto foram traduzidas e adaptadas destes sites também.

No próximo post falaremos sobre um sistema de escrita desenvolvido recentemente para uma língua africana falada por cerca de 20.000 pessoas.

Um abraço!

2 comentários:

  1. Caramba, Mario! Muito interessante o seu texto. Esse lance de "por que a gente fala?" sempre me deixou meio curiosa :)

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  2. Há mais teorias sobre isso, Mariana, mas são hipóteses. Por exemplo, há quem diga que a partir do momento em que o 'homem' ficou de pé, para se enxergar mais longe e se defender de predadores, automaticamente passou a desenvolver um sistema de sons que veio a se tornar linguagem. É difícil saber ao certo.

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