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quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Regência do verbo CHEGAR. A resistência de quem não enxerga a evolução.

            Hoje vou comentar regência verbal, especificamente a regência do verbo CHEGAR (no sentido de atingir o fim de um movimento de ida ou de vinda). Esse é um daqueles verbos que mostram claramente a diferença da visão dos puristas, que não aceitam as mudanças na língua, daquela dos que acompanham a evolução natural e respeitam os fatos da língua como eles são.
            Segundo a gramática normativa, aquela mesma, do séc. XIX, que é imposta nas escolas até hoje, o verbo chegar rege a preposição A. Em outras palavras, com o verbo CHEGAR devemos usar sempre a preposição A. Nunca outra. Estaria errado!! Ai ai ai, como essa falta de flexibilidade me chateia. Como assim, ERRADO??

            Cheguei à França -> certo / Cheguei na França -> errado
            Cheguei a Brasília -> certo / Cheguei em Brasília -> errado

            Se os falantes, por um motivo ou por outro, começaram a usar a preposição EM com o verbo CHEGAR e esse uso foi disseminado e é aceito pelos falantes (quando digo ‘aceito’ quero dizer que não causa estranheza nem ruído na comunicação), por que as gramáticas tradicionais não o aceitam como bom para o verbo CHEGAR? O falante segue uma espécie de intuição, ele não ‘chuta’ uma preposição qualquer por revolta ou vontade de ser diferente. Por exemplo, por que nenhum falante usa a preposição PARA com o verbo CHEGAR?
            Desabafo a parte, vamos às explicações. As gramáticas tradicionais dizem que com o verbo CHEGAR a preposição EM só deve ser usada diante da palavra CASA. (cheguei em casa). Menos mal, porque é a que todo falante usa. Nem precisava ter regra. Isso é um ponto interessante: quando a gramática faz seu real papel de descrever o uso da língua e não de impor regras. Alguém já ouviu algum brasileiro falando ‘vou chegar a casa e tomar um banho’? Claro que não.
            Estudiosos, linguistas, filólogos têm registrado a ocorrência da preposição EM no lugar de A em todas as partes do Brasil. Ela já substituiu a preposição A na fala há muito tempo. Alguns estudiosos admitem seu uso na escrita e registram essa ocorrência em diversos autores modernistas. Todos sabemos que o uso de certas expressões por parte de escritores importantes legitima-as para que sejam validadas. É assim que estudamos, não é? Com exemplos de escritores do séc. XIX. Então que valha para os escritores modernos também.
            Pois não é que ainda temos pessoas que desaprovam esse uso como se fosse descuido, falta de preocupação? Vejam o que consta no blog da jornalista Dad Squarisi, de Brasília, respondendo a uma estudante do primeiro ano:

Manoela Ribeiro Braga 1o ano Maristão
Como se pode explicar que, embora a gramática determine que os verbos ir e chegar exijam a preposição a, se observa na fala a realização desses verbos acompanhados da preposição em? (Manoela Ribeiro Braga)

É a tal coisa, Manoela. A fala é descuidada. O vento a leva. As pessoas, por isso, não se preocupam muito ao se exprimirem oralmente. Na escrita a novela muda de enredo. Se disputamos uma vaga na universidade ou aprovação em concurso, a regência exigida pela norma culta se impõe. Se trocamos as bolas, perdemos pontos nas provas e na vida. Melhor pôr as barbas de molho e usar a preposição nota mil: Cheguei a Brasília há cinco anos. Vou à piscina e, depois, ao clube.
(os grifos são meus)

            É o cúmulo do purismo! É o cúmulo da falta de senso. Duvido que hoje em dia, por mais tradicionalistas que possam ser os professores que elaboram provas de concursos, vestibulares etc., eles jamais proporiam uma questão que envolvesse a regência do verbo CHEGAR sem levar em conta o uso comum. E tenho certeza também que numa redação esse uso não seria considerado erro. Não pode. Caberia até recurso. A opinião sobre o uso não é unânime, então, não é passível de punição. A jornalista acha que os falantes usam EM porque são ‘descuidados’. ME POUPE!!!!! (segundo os normativistas, eu deveria dizer POUPE-ME. Eu pergunto: teria o mesmo sentido?)
            E como boa parte dos professores puristas (não sei se ela é professora, só exemplifiquei o caso), ela dá um exemplo horroroso no final de sua explicação:

            Vou à piscina e, depois, ao clube.

            Gramaticalmente não há erro nenhum nesse período. Mas a construção causa estranheza e pode causar ruído na comunicação. Explico: normalmente, quando pensamos em piscina, pensamos em um clube. Claro que não é regra, mas quem mora em núcleo urbano faz essa associação. Então. Soa estranho uma pessoa falar que vai à piscina e depois ao clube. Não que isso seja impossível, claro que não. Mas é como falar ‘vou à missa e, depois, à igreja’. É possível, mas é estranho. Isso sempre acontece com esses gramatiqueiros. Eles focam o estudo na forma, o conteúdo não é importante. Um professor que conheça os fatos da língua daria exemplos contextuais, jamais coisas soltas assim. A preocupação desse último é com o entendimento do texto, do sentido, do que o autor quis dizer. Um professor que se preocupe com o verdadeiro aprendizado de seus alunos não ensinará regência da forma como a jornalista explica.
            O recado que dou para a estudante Manoela Ribeiro Braga é o seguinte: consulte outras pessoas quando tiver dúvidas de português e uso da língua. Sugiro esse site:


Vejam o que pensam a respeito de regência:

Casos de Regência

            São apresentados a seguir casos de regência em que se verifica divergência entre o que preceitua o ensino tradicional e a realidade linguística atual.
            A abordagem que se faz desses casos diverge consideravelmente da realizada pela maioria dos manuais de cultura idiomática, que privilegiam apenas as regências primárias, originárias, não registrando, por isso, as fortes tendências evolutivas nesta área. Dá-se atenção, nesta apresentação, às inovações sintáticas observadas na realidade linguística atual, tendo como base as pesquisas de Luiz Carlos Lessa e Raimundo Barbadinho Neto, amplamente aproveitadas por Celso Pedro Luft em seu "Dicionário Prático de Regência Verbal".
            Na apresentação dos aspectos normativos da língua, como em qualquer apreciação de fatos linguísticos, há que se observar o que é preferível, o que é tolerável, o que é admissível, o que é aceitável, o que é grosseiro, o que é inadmissível, deixando de lado a dicotomia elementar, o primitivismo linguístico que observa a língua sob o prisma estreito de "certo" x "errado".

            Veja como ele explica a regência do verbo CHEGAR:

Sentido: Atingir o término do movimento de ida ou vinda.
De acordo com o ensino tradicional:
Verbo: Transitivo indireto
Preposição: a
Exemplo: Chegou cedo à escola.
De acordo com a realidade linguística atual:
Verbo: Transitivo indireto
Preposição: em
Exemplo: Chegou cedo na escola.
Observações: 
- A preposição "em" é exclusiva diante da palavra "casa". Exemplo: Chegou em casa.
- No Brasil, usa-se muito a construção com a preposição "em". É, portanto, um brasileirismo. Exemplo: Quando ele chegou na porta da cozinha.
- "Já se tolera o "chegou em" na linguagem escrita". (Sílvio Elia).
- Luiz Carlos Lessa e R. Barbadinho Neto confirmam amplamente essa regência entre os modernistas.
- Mesmo assim, Luft entende que, em texto escrito culto formal, melhor se ajusta o "Chegar a".

16 comentários:

  1. É certo escrever? Os alunos ficaram com falta por chegarem atrasados.

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    1. Não gosto de análises estreitas, que reduzem as coisas a 'certo' e 'errado'. Não existe certo e errado em língua, existe adequação ou inadequação. A frase "Os alunos ficaram com falta por chegarem atrasados" não causa nenhum ruído de comunicação, é completamente entendida. Porém, ela pode ser aprimorada. Eu prefiro "Os alunos ficaram com falta por TEREM CHEGADO atrasados". A razão de eles terem ficado com falta é TEREM CHEGADO atrasados. É uma questão de causa e consequência. Outra possibilidade é "Os alunos FICAM com falta por chegarem atrasados". É uma informação genérica, quem chegar atrasado leva falta.

      Veja que estou respondendo somente com base na questão verbal, não entrei em mais detalhes porque achei que sua dúvida era essa. Nem quis alterar sua construção pra não influenciar minha análise.

      Outro dia ouvi na TV um apresentador falar assim, para um evento já acontecido: "se o Brasil jogasse 50% do que sabe ganharia o jogo". Num texto mais apurado, como o evento já tinha acontecido, teria sido melhor dizer "se o Brasil TIVESSE JOGADO 50% do que sabe, TERIA GANHO o jogo". Não digo que o que ele disse está 'errado', até porque não gera problemas na comunicação. Mas a outra forma é mais adequada, é uma forma mais apurada. É a diferença entre um bom texto e um texto comum. Um abraço!

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  2. Gostei muito da sua explicação, mas o tema é controverso! Existem os defensores do "chegar a" e do "chegar em". Confesso que sempre usei o segundo e me soa estraho quando me deparo com o primeiro... Acaba me lembrando o português de Portugal! Inclusive verifiquei em um dicionário que tenho aqui em casa e um dos exemplos que ele trás é "Chegaremos no Rio logo".

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    1. Olá Milena. O tema é controverso pq a língua já mudou há muito tempo e os puristas insistem em dizer que o uso de 'EM' com chegar é 'errado'. Essa é única controvérsia, não aceitar uma mudança da língua já ocorrida e, consequentemente, não incluí-la nos capítulos de regência verbal das gramáticas normativas. Os defensores do 'chegar a' são os normativistas puristas (Pasquale etc.); os defensores do 'chegar em' são os linguistas, que a bem da verdade, não fazem o papel de 'purista ao contrário'. O que eles defendem é a flexibilidade do uso; tanto faz reger o verbo chegar com A ou EM.

      A propósito de preposições, observe no seu dia-a-dia como a preposição A está desaparecendo na fala. É uma preposição fraca, a tendência é que desapareça por completo, embora não se possa afirmar nada em termos de mudança linguística. Um grande abraço e obrigado pela colaboração!

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  3. acabei de responder uma questão de concurso da ESAF de 2012 que se resolvia se o candidato soubesse exatamente que "chegar" rege na lingua culta, a preposição "a".

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    1. Vai vendo aí... E temos que aceitar esse purismo! Gostaria de saber qual é a definição de 'língua culta' segundo os elaboradores da prova. Um abraço!

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  4. Mario, e quanto a crase.
    Porque se utiliza crase em "Cheguei à França" e não utiliza em "Cheguei a Brasília"?

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. "Então, não há COM o que se preocupar." Não seria essa, a regência correta para o verbo PREOCUPAR quando pronominal (como é o caso)?


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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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    4. Perfeito. Falha minha na hora de digitar. Agradeço sua observação!

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    5. A explicação é simples. Com verbos como IR, VIR, CHEGAR, não usamos o artigo definido

      quando se referem a cidades e estados, mas as usamos quando se referem a países. Daí o uso

      da crase (A prep. + A artigo) em 'Cheguei à França'. Na linguagem corrente, tema da discussão

      do post, brasileiros diriam 'cheguei NA França', o que ajuda a explicar o uso da marca de crase

      (EM + A, preposição + artigo). Outros exemplos: cheguei à/na Itália, cheguei à/na Nova Zelâdia,

      cheguei aos/nos EUA, cheguei à/na África do Sul, cheguei ao/no Japão.

      Como não usamos o artigo para cidades e estados, não há crase em cheguei a/em Brasília,

      cheguei a/em São Paulo, cheguei a/em Porto Alegre, cheguei a/em Macapá.

      Há exceções, porém, como sempre. Para alguns países não usamos o artigo: cheguei a/em

      Angola, cheguei a/em Moçambique. E para algumas cidades, ao contrário, usamos o artigo:

      cheguei ao/no Rio de janeiro, cheguei ao/no Recife, cheguei ao/no Cairo.

      Mas o mais importante de tudo: esse tipo de uso está internalizado nos falantes, de forma

      generalizada. Então, não há a menor necessidade de se decorar regras ou exceções de uso ou

      não de artigos em topônimos (nomes de localidades geográficas). Todos os falantes dizem 'O

      Rio de Janeiro', e 'São Paulo' (sem artigo). Ninguém diz 'O São Paulo' e 'Rio de Janeiro'. E nunca

      ouvi ninguém falar 'A Angola' ou 'O Moçambique'. Então, não há com o que se preocupar. Se a

      sua dúvida é a famigerada crase, substitua o artigo por EM. Se funcionar (se soar como vc está

      acostumado a ouvir), quando usar a preposição A ela deverá ser craseada. E fica uma sugestão:

      pesquise a razão do uso de artigos para países e o não uso para cidades e estados. Um abraço e

      obrigado!!

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  5. Qual o transitivo direto e indireto do verbo chegar?

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  6. O verbo chegar é um verbo de " movimento " quem chega, chega a algum lugar e exige a preposição "a".
    O verbo chegar é verbo transitivo indireto.Se acrescentar ao verbo "chegar" alguma palavra sem uso da preposição, por exemplo:" chegou cedo" - não se constitui objeto direto, se constitui adjunto adverbial de tempo.

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  7. Parabéns pelo Blog! São excelentes as abordagens acerca dos fenômenos linguísticos nele encontradas. E, em especial, a ênfase dada à evolução da língua. Afinal, ela é viva e dinâmica, e está em constante processo de construção. Infelizmente, muito se trabalha (nas escolas) ainda sob o julgo inflexível da dicotomia do 'certo' x 'errado'.

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  8. Por que a manutenção da norma dita culta é vista como algo tão execrável? Quando falamos em certo e errado estamos querendo dizer que é certo ou errado em relação a norma culta, é claro. Não em relação ao livro da verdade revelada por algum Deus. O que tem demais falar em certo e errado? As pessoas vão entrar em depressão se dizemos que estão falando errado? Vão se matar? É mais um discurso daqueles de esquerda que veem opressão e preconceito social em tudo? Temos que dizer que funk carioca é arte se não somos elitistas e dizer que "os livro" está correto senão o politicamente correto nos acusará de preconceito linguístico? Se o purismo linguístico você acha detestável o que me incomoda é o purismo do progressismo político.

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