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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Derrepente ou de repente? Concerteza ou com certeza? Por que tantos usam as formas não dicionarizadas?

O assunto dessa semana é ortografia. Mas, como sempre, não é 'dica de português' de gramatiqueiro. É uma tentativa de explicar a razão da ocorrência tão comum de algumas palavras ou expressões escritas em desacordo com nossos dicionários.
Antes de escrever esse post, corri os olhos em algumas páginas da internet, sobretudo blogs que pretendem ser fontes de ajuda para estudantes. Em todos os que vi ninguém se propôs a explicar nada. Só falam que isso é 'certo' e aquilo é 'errado'. Isso não é bom nem didático.
Sempre que há um erro de grafia, em qualquer circunstância, há sempre um motivo. E esse motivo NUNCA é 'ser burro', como querem alguns. Por exemplo, as crianças em fase de alfabetização costumam escrever 'caza' em vez de 'casa'. Isso tem uma razão lógica. Afinal, como é a pronúncia? A criança em fase de aprendizado segue simplesmente a lógica. Uma boa professora jamais deve riscar de vermelho a 'caza' e falar que 'está errado'. Deve elogiar o resultado do trabalho e explicar que essa palavra se escreve com S. Mas o que vai mesmo acabar com esse problema de grafia vai ser a prática, tanto de leitura como de escrita. E isso vale pra todo mundo, adultos inclusive.
Por que muitos adultos escrevem 'excessão' em vez de 'exceção'? As razões são as mesmas das crianças. O fato é que devemos decorar mesmo, pois os sons são os mesmos.
Isso me lembra uma empresa em que trabalhei. Era muito comum receber emails com a palavra 'excessão' no lugar de 'exceção'. Sempre que isso acontecia, eu costumava escrever, em tom de brincadeira, que 'excessão' era um 'excesso grande'. Tempos depois, conversando sobre isso, percebi que ninguém nunca havia entendido a piada. Um detalhe: boa parte dos que escreviam daquele jeito eram até pós-graduados.
Bem, vamos dar um outro exemplo, bem corriqueiro, mas que tem ocorrido somente entre as classes menos escolarizadas: 'derrepente'. Tenho absoluta certeza de que os leitores já terão visto essa expressão escrita dessa maneira. Os gramatiqueiros tratam de dizer que isso está errado. De fato, isso não está nos dicionários (ainda), então a pessoa que assim escreve deve ser orientada a escrever 'de repente'. Tudo bem? Não. Meu propósito é explicar o porque dessa ocorrência tão comum. Isso é um processo absolutamente natural de formação de palavras. Ocorre em todas as línguas e com o português não é diferente. A expressão 'de repente', que significa 'subitamente', 'repentinamente', é usada com tanta frequência que os falantes passam a não perceber que se trata de uma locução. Além disso, há a mudança semântica: veja que 'de repente' tem o sentido de 'talvez' em muitas ocasiões: 'vou ver o que tenho pra fazer, de repente eu passo na sua casa amanhã'.  É mais um motivo pra que a locução transmita a ideia de ser escrita com uma só palavra. Esse tipo de fenômeno é bem comum e vem acontecendo ao longo do tempo. Vejam exemplos já dicionarizados: 'dantes' (de antes), 'devagar' (de vagar, vagarosamente, com vagar), 'depressa' (de pressa, com pressa). Então por que julgar e condenar o usuário que está se antecipando aos tempos?
Não, não estou defendendo que se escreva 'derrepente'. Estou explicando que isso não é crime, embora quem esteja escrevendo assim precise ser advertido de que deve usar a forma dicionarizada para o seu próprio bem, para poder ter acesso a outros níveis sociais.
E vejam ainda a coerência do que estou dizendo: vocês já viram alguém escrevendo 'derepente'? Eu nunca. Por que? Porque o som do R de Repente, se colocado no meio de uma palavra, deve ser escrito com RR. É a lógica. O falante alfabetizado sabe disso, nem precisa ser letrado.
Outro exemplo semelhante: 'concerteza' em vez de 'com certeza'. Essa expressão, garanto a vocês, não era escrita com uma palavra até o início dos anos 80. Mas o seu uso difundido, a partir de uma apresentadora de um telejornal vespertino, inclusive com mudança semântica, provocou a mesma impressão no falante que a do 'derrepente'. Da mesma forma, é preciso orientar as pessoas que escrevem 'concerteza'. E alguém aí já viu a palavra 'comcerteza'? Eu também não. O raciocínio é idêntico. O sujeito alfabetizado se lembra bem da regrinha de 'antes de P e B só se escreve M...' As pessoas não cometem esse 'erro'.
Bem, por hoje é isso. Precisamos entender como funciona a língua, desmistificar os 'erros e acertos' e orientar as pessoas a usarem as formas prestigiadas, tanto na fala como na escrita, mostrando-lhes que quem domina a língua tem poder.
Acho que não vou viver até que as formas das quais falamos estejam dicionarizadas, mas se houvesse a possibilidade de apostar nisso, eu apostaria.
E vejam também como é importante entender que A ESCRITA É A REPRESENTAÇÃO DA FALA E NÃO O CONTRÁRIO!
Até a próxima.

4 comentários:

  1. CONCERTEZA vc esta com a razao, ainda que se deve seguir a regra gramatical, aquela falada se transforma a cada dia e se torna regra gramatical como nos ex. que vc deu... mais uma vez parabéns pelo bom senso ( ou seria BONSENSO? hehehe) quem viver vera! ( em tempo: como comento da Italia, aqui o teclado nao tem diversos acentos graficos como "til", "agudo", "circunflexo" etc, mas da pra entender) ciao. demostenes claudio resende

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  2. Obrigado meu caro. Esses casos, hoje, causam espanto mas esse tipo de 'aglutinação' é recorrente nas línguas. Veja o caso de DEPRESSA! Antigamente era 'DE PRESSA', hoje é DEPRESSA (junto) pelos mesmos motivos que levam as pessoas a usarem DERREPENTE e CONCERTEZA. Com relação ao teclado italiano, sei bem o que é isso, eu sabia de memória os atalhos com CTRL+ALT para digitar os caracteres acentuados ;-) Saluti!

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    1. Jà provei todas as opçoes de atalhos como fazia ai, mas nao consegui "descobrir" estes escondidinhos.... continue postando que faz bem estas, digamos, polemicas. abçs
      demostenes claudio resende

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  3. Porque as conjunções são aglutinadas? Portanto, porque,entretanto e por aí vai...

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