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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Salsicha ou salchicha???


Semana passada vi uma frase numa rede social que dizia “não basta ser pobre, tem que falar ‘salchicha’!”. Claro que o tom da frase era de piada, era pra fazer rir. E, de fato, a frase provocou muitas respostas, todas com algum tipo de ‘riso’ (rsrs, kkkk, huahua...) e muitas com palavras soltas numa espécie de sugestão para complementar o tema: largatixa, resistro, enterter, chuva de granito, eczema pulmonar, tauba, mortandela, galfo, cuié, pobrema. Entretanto, o comentário que mais me atraiu a atenção, porém, foi o primeiro, que dizia “Vixi!!! é assassinar a língua portuguesa”.
                Não vou negar que acho engraçado ouvir certas expressões orais. E, convenhamos, a frase, em tom de piada, é boa porque parodia um dito que se popularizou recentemente: ‘não basta ser..., tem que...’ Sem dúvida, foi criativo.
                Mas agora vem a parte séria do post. Por que alguém faz essa associação de que quem fala 'salchicha' é pobre? Bem, a associação é feita porque, no Brasil, ‘pobre’ é associado a pessoa com baixa escolaridade, sem instrução e às vezes até (infelizmente) a burro.
                Pouca gente sabe (muito pouca mesmo) que salsicha e salchicha são sinônimas. Tanto faz, pode-se falar de ambos os modos, constam nos dicionários ambas as formas. Não é comum encontrar a forma ‘salchicha’ em minidicionários, mas nos grandes está sempre lá: “variedade de salsicha” ou “V. salsicha”, forma que assumiu mais prestígio no Brasil. Em teoria, a forma mais próxima da origem da palavra seria justamente a ironizada ‘salchicha’. Essa palavra é composta de ‘chicha’, carne picadinha, toucinho, com ‘sal’, salgado. Significaria mais ou menos ‘carne picadinha salgada’. Provavelmente na sua origem era isso. Depois resolveram ensacar a carne picadinha e aí virou a nossa conhecida ‘salchicha’ de hoje. Procurem no dicionário ‘chicha’ e encontrarão a definição. Porém, não encontrarão nada se procurarem por ‘sicha’.
                Acho que agora dá para entender melhor o que quis dizer quando falei que a forma salsicha assumiu mais prestígio. Por alguma razão essa forma passou a ser falada pelas classes dominantes, por aquelas pessoas que ditam as regras. Isso é o que determina a forma de prestígio de uma palavra, de uma expressão de uma língua. E a forma salchicha ficou pra trás, sendo falada por aquelas pessoas que não têm acesso à informação e não sabem que usar a forma prestigiada facilita a vida, abre portas.
                Por mera curiosidade, vamos ver o caso dessa mesma palavra em italiano, língua que conheço bastante bem: SALSICCIA (leia-se salsítchia). O significado não é o mesmo que salsicha, mas é parecido. A ‘salsiccia’ está mais para a nossa linguiça, mas isso não importa. O que importa é que lá, como aqui, há pessoas que preferem dizer SALCICCIA (leia-se saltchítchia). A explicação é a mesma que dei acima. Só tem uma diferença: CICCIA (leia-se títchia) é palavra corriqueira, são as gordurinhas, ou pedacinhos de carne bem pequenos com gordura. Por exemplo, usa-se a expressão CICCIONE (leia-se titchione) para chamar alguém de gordo. A diferença que percebi lá é que ninguém ‘corrige’ quem fala salciccia em vez de salsiccia, apesar de a segunda forma ser mais usada.
                O mais engraçado de tudo isso é a grande ignorância de boa parte das pessoas aqui no Brasil que simplesmente atribuem rótulos pejorativos às formas de falar diferentes daquelas prestigiadas. Nem mesmo consultam um simples dicionário antes de se pronunciar. Repetem o que outros dizem, sem verificar se procede. No Brasil isso é muito evidente. O brasileiro monitora o que os outros falam o tempo todo, loucos pra encontrar um desvio da norma e poder criticar. Inclusive em outros idiomas. Joel Santana que o diga.
                Lembram que, no início desse texto, eu falei de um comentário que me atraiu a atenção? (Vixi!!! é assassinar a língua portuguesa.)? Pois vejam como tudo é relativo. A crítica foi feita em cima de um acerto, ou seja, é improcedente. Isso sem falar no exagero de dizer que quando alguém comete algum desvio da norma, por menor que seja, possa ser considerado assassino da língua. E a própria pessoa que criticou cometeu dois deslizes até grosseiros:
  • ·         Usou expressão oral (Vixi) numa crítica a expressões orais;
  • ·         Começou oração com letra minúscula (é assassinar...).

Alguns vão dizer “ah, mas aí é exagero, quando se escreve em redes sociais (ou na internet em geral) a gente passa por cima de muita coisa pra ser mais prático!” Eu concordo com isso, desde que não tivesse sido uma crítica à forma de se expressar em língua portuguesa. Trata-se de uma acusação de assassinato com outro assassinato. Por que o réu não pode dizer salchicha e o promotor pode começar oração com letra minúscula? Eu provei que o réu não é assassino, que pode falar salchicha o quanto ele quiser. Cabe agora ao promotor se defender.
                Em minha opinião, a língua portuguesa não foi afetada em nenhum dos dois casos. O único erro foi a acusação de um delito que não houve.
                Em breve vou escrever sobre rotacismo (flecha/frecha, Cláudia/Cráudia...) que também ajudaram a criticar o ‘pobre’ que fala ‘salchicha’. Já pensou se descobríssemos que quem fala FRECHA, FRAUTA, PRANTA está linguisticamente mais avançado do que quem fala FLECHA, FLAUTA, PLANTA?
                - Ah, não, Mário!!! Aí é demais pra mim!! Me recuso a aceitar isso.
                - Vamos ver em breve, caro leitor.
Um abraço.

4 comentários:

  1. Sensacional !

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  2. Ótimo post! Minha vó, coitada, sempre falou "salchicha", e minha família dizia "own, que fofinha, ela fala salchicha", com a certeza de que ela falava errado. E não é que ela está certa mesmo?

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  3. Sensacional essa iniciativa de esclarecer este tipo de dúvida. Outros apenas apoiariam a crítica perjorativa do cidadão que postou o comentario...
    Parabéns!

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  4. Adoreiiiiii!!!!! Parabénssss!!!

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